
O que o exame citopatológico do colo do útero (Papanicolaou) mostra sobre vaginose bacteriana, Candida spp. e Trichomonas vaginalis e o que a microbiota pode indicar sobre o HPV
Nesta edição
p. 2Frequência e critérios dos três organismos · convencional × base líquida
p. 3Microbiota e HPV: mecanismo, contraponto e como registrar no laudo
p. 4–5Atividades no 24º Congresso Brasileiro de Citologia Clínica da SBCC
p. 6Imagem da semana: banquete de Trichomonas vaginalis
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Pacientes positivas para HPV de alto risco com vaginose bacteriana no esfregaço (clue cells) foram comparadas a pacientes sem vaginose. Quem tinha vaginose permaneceu mais tempo HPV positiva, eliminou menos o vírus e progrediu mais na citologia.
Com vaginose × sem vaginose. Linz et al., 2026. Duas coortes retrospectivas de um laboratório alemão (2020–2022).
LER NO PUBMEDA vaginose bacteriana foi reconhecida em 4,2% das pacientes HPV positivas apenas pela morfologia do esfregaço. Os autores sugerem que esse registro, já disponível na rotina, pode ajudar a identificar pacientes que merecem seguimento mais próximo.
O achado não exige exame adicional: clue cells e a perda de lactobacilos já são avaliadas em todo Papanicolaou. Descrevê-los com critério torna o laudo mais informativo para o seguimento.
Retrospectivo e de um único laboratório. Mostra associação, não causa: a disbiose pode ser fator de risco ou consequência da própria infecção pelo HPV (ver p. 3).
Na rotina citopatológica, alterações compatíveis com vaginose bacteriana e estruturas fúngicas de Candida spp. respondem pela maioria dos laudos com microrganismos específicos. Trichomonas vaginalis é menos prevalente, mas exige critério estrito, pois a inflamação intensa associada pode simular alterações reativas ou atípicas.
Em 3.230 citologias em base líquida, 25,1% apresentaram infecção; o padrão de vaginose bacteriana respondeu por 58,07% desses casos. Observam-se cocobacilos recobrindo células escamosas (clue cells) e escassez de lactobacilos.
Em 284 laudos de gestantes e não gestantes (infecção em 52,8%), Candida spp. foi o segundo agente mais frequente (26,8%), e a coinfecção com vaginose bacteriana foi a mais comum (13,4%). A citologia mostra leveduras e pseudo-hifas.
Em estudo retrospectivo brasileiro com 23.735 mulheres rastreadas, a prevalência citológica foi de 0,84% (2019) e 0,57% (2022). Havia inflamação em 82% dos esfregaços positivos e predomínio de lactobacilos em apenas 15,3%.
Dois estudos compararam os dois métodos nas mesmas pacientes; os resultados não devem ser somados.
Organismos foram registrados em 208 esfregaços convencionais (34%) e 162 preparações em base líquida (27%). A diferença concentrou-se nos bacilos de Döderlein, comensais normais (94 vs. 58); Gardnerella/clue cells foram semelhantes (66 vs. 62). Para organismos patogênicos, os autores não observaram diferença relevante.
Prática de bancada: esporos de Candida foram mais evidentes no convencional, e as pseudo-hifas, mais nítidas na base líquida.
Com a mesma coleta dividida entre esfregaço convencional e base líquida (EziPREP), a base líquida registrou um pouco mais de vaginose bacteriana (65 vs. 58), Candida spp. (11 vs. 7) e Trichomonas vaginalis (7 vs. 5), sem diferença estatisticamente significativa.
Prática de bancada: no mesmo caso de candidíase, as hifas apareceram com mais nitidez na base líquida do que no convencional.
A associação descrita na capa não indica direção. Lebeau et al. (2022) propõem que o próprio HPV altere o ambiente cervicovaginal: a infecção reduziria peptídeos da imunidade inata da mucosa que os lactobacilos usam como fonte de aminoácidos, favorecendo a perda de sua dominância.
Nessa leitura, a disbiose pode ser tanto fator de risco quanto consequência da infecção, o que ajuda a explicar resultados divergentes entre estudos. Associação não é causalidade.
O estudo da capa associou a vaginose bacteriana a mais persistência do HPV. Já neste estudo, com 98 mulheres positivas para HPV de alto risco acompanhadas por dois anos (49 com clareamento e 49 com persistência), a microbiota vaginal, avaliada por cultura e tipos de comunidade (CST), não mostrou diferença global significativa entre os grupos.
Microscopia, cultura e sequenciamento medem coisas diferentes, em populações e tempos de seguimento diferentes. A microbiota deve ser tratada como possível cofator, não como determinante isolado.
No mesmo estudo, a distribuição dos CST diferiu entre infecção única e múltipla por HPV de alto risco (p = 0,002).
Critérios: Fundo com película de cocobacilos; células escamosas recobertas (clue cells) com bordas obscurecidas; ausência marcante de lactobacilos e leucócitos geralmente escassos.
Alerta prático: Não confundir bactérias livres agregadas no muco com verdadeiras clue cells. Atipias escamosas podem ficar mascaradas pelo biofilme.
No laudo
Bethesda: alteração da microbiota sugestiva de vaginose bacteriana
Nomenclatura Brasileira: bacilos supracitoplasmáticos (sugestivos de Gardnerella/Mobiluncus)
Critérios: Leveduras ovais com brotamento (3 a 7 µm) e pseudo-hifas eosinofílicas a acinzentadas, por vezes "espetando" agrupamentos de células escamosas.
Alerta prático: Alterações reativas associadas não devem ser interpretadas como ASC-US/LSIL; distinguir pseudo-hifas de fibras e artefatos.
No laudo
Bethesda: fungos morfologicamente compatíveis com Candida spp.
Nomenclatura Brasileira: Candida sp.
Critérios: Organismos piriformes, ovais ou arredondados, cianofílicos (15 a 30 µm), com núcleo excêntrico vesicular pálido e grânulos eosinofílicos; flagelos por vezes visíveis na base líquida.
Alerta prático: Evitar laudos baseados somente em restos citoplasmáticos ou núcleos nus; exige visualização clara do núcleo do parasita.
No laudo
Bethesda e Nomenclatura Brasileira: Trichomonas vaginalis
O achado citológico é presuntivo. Quando o quadro clínico exigir, a confirmação cabe a métodos microbiológicos ou moleculares.
Realizado com a 5ª Jornada Brasileira de Diagnóstico Laboratorial, no RioMar Eventos, o congresso reuniu especialistas, pesquisadores e estudantes em torno dos desafios atuais da patologia cervical e da medicina laboratorial.
O Citologia Descomplicada palestrou no workshop do Grupo Stra/GynoPrep e na Discussão de Casos 3, e realizou o rally citomorfológico com a OutSet Equipamentos e o Grupo Stra.
VER PÁGINA DO EVENTO
03/09 · 14h
Palestra com Dafiny Emanuele, assessora científica do Grupo Stra/GynoPrep: "DNA-HPV e citologia cervicovaginal: complementaridade no rastreamento do câncer do colo do útero".
Dois dias
Realizamos o rally em parceria com a OutSet Equipamentos e o Grupo Stra: turmas analisaram lâminas ao microscópio, com premiação ao final. Registros na página seguinte.
05/09 · 11h
Palestra com o Dr. José Queiroz Filho, na sessão de citologia ginecológica coordenada pelo Dr. Josenilson Ferreira Nunes, com análise morfológica de casos e critérios diferenciais.
Registro da Comissão de Comunicação Social da Sociedade Brasileira de Citologia Clínica (SBCC), entidade realizadora do congresso, no painel oficial do evento.
Em dois dias de rally, turmas de participantes analisaram casos de rotina ao microscópio, confrontando critérios e condutas em discussão aberta com os assessores técnicos. As equipes premiadas receberam o reconhecimento no estande GynoPrep.






O que se vê
Múltiplos organismos de Trichomonas vaginalis agrupados na periferia de células escamosas, no padrão conhecido como "banquete", sobre fundo com neutrófilos.
O que procurar
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As imagens da capa e das páginas 2 e 3 são ilustrações geradas por inteligência artificial, usadas apenas como recurso gráfico: não são micrografias reais nem figuras dos artigos. As fotografias do congresso são registros documentais, e a imagem da semana é uma micrografia real.