Citologia em Foco
Newsletter · Edição 02/2026

Organismos na citologia cervicovaginal

O que o exame citopatológico do colo do útero (Papanicolaou) mostra sobre vaginose bacteriana, Candida spp. e Trichomonas vaginalis e o que a microbiota pode indicar sobre o HPV

Ilustração editorial do ambiente cervicovaginal e da microbiota

Nesta edição

p. 2Frequência e critérios dos três organismos · convencional × base líquida

p. 3Microbiota e HPV: mecanismo, contraponto e como registrar no laudo

p. 4–5Atividades no 24º Congresso Brasileiro de Citologia Clínica da SBCC

p. 6Imagem da semana: banquete de Trichomonas vaginalis

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Em destaque

Vaginose bacteriana no Papanicolaou e o curso da infecção por HPV

Pacientes positivas para HPV de alto risco com vaginose bacteriana no esfregaço (clue cells) foram comparadas a pacientes sem vaginose. Quem tinha vaginose permaneceu mais tempo HPV positiva, eliminou menos o vírus e progrediu mais na citologia.

50% × 24%HPV ainda positivo após 2 anos
24% × 10%progressão citológica em 1 ano
29% × 52%clareamento do HPV em 1 ano

Com vaginose × sem vaginose. Linz et al., 2026. Duas coortes retrospectivas de um laboratório alemão (2020–2022).

LER NO PUBMED

O que isso significa para quem lê a lâmina

A vaginose bacteriana foi reconhecida em 4,2% das pacientes HPV positivas apenas pela morfologia do esfregaço. Os autores sugerem que esse registro, já disponível na rotina, pode ajudar a identificar pacientes que merecem seguimento mais próximo.

Por que importa

O achado não exige exame adicional: clue cells e a perda de lactobacilos já são avaliadas em todo Papanicolaou. Descrevê-los com critério torna o laudo mais informativo para o seguimento.

Limites do estudo

Retrospectivo e de um único laboratório. Mostra associação, não causa: a disbiose pode ser fator de risco ou consequência da própria infecção pelo HPV (ver p. 3).

Atualizações citológicas

Frequência relativa e critérios morfológicos

Na rotina citopatológica, alterações compatíveis com vaginose bacteriana e estruturas fúngicas de Candida spp. respondem pela maioria dos laudos com microrganismos específicos. Trichomonas vaginalis é menos prevalente, mas exige critério estrito, pois a inflamação intensa associada pode simular alterações reativas ou atípicas.

Ilustração editorial de padrão citológico compatível com vaginose bacteriana

Vaginose bacteriana

Em 3.230 citologias em base líquida, 25,1% apresentaram infecção; o padrão de vaginose bacteriana respondeu por 58,07% desses casos. Observam-se cocobacilos recobrindo células escamosas (clue cells) e escassez de lactobacilos.

Ilustração editorial de leveduras e pseudo-hifas compatíveis com Candida

Candida spp.

Em 284 laudos de gestantes e não gestantes (infecção em 52,8%), Candida spp. foi o segundo agente mais frequente (26,8%), e a coinfecção com vaginose bacteriana foi a mais comum (13,4%). A citologia mostra leveduras e pseudo-hifas.

Ilustração editorial de trofozoítos de Trichomonas vaginalis

Trichomonas vaginalis

Em estudo retrospectivo brasileiro com 23.735 mulheres rastreadas, a prevalência citológica foi de 0,84% (2019) e 0,57% (2022). Havia inflamação em 82% dos esfregaços positivos e predomínio de lactobacilos em apenas 15,3%.

Comparação metodológica

Detecção de organismos: citologia convencional e base líquida

Dois estudos compararam os dois métodos nas mesmas pacientes; os resultados não devem ser somados.

C4 · 600 pacientes · Patel et al., 2023

Convencional: mais comensais

Organismos foram registrados em 208 esfregaços convencionais (34%) e 162 preparações em base líquida (27%). A diferença concentrou-se nos bacilos de Döderlein, comensais normais (94 vs. 58); Gardnerella/clue cells foram semelhantes (66 vs. 62). Para organismos patogênicos, os autores não observaram diferença relevante.

Prática de bancada: esporos de Candida foram mais evidentes no convencional, e as pseudo-hifas, mais nítidas na base líquida.

C14 · 515 mulheres · Gupta et al., 2019

Base líquida: números semelhantes

Com a mesma coleta dividida entre esfregaço convencional e base líquida (EziPREP), a base líquida registrou um pouco mais de vaginose bacteriana (65 vs. 58), Candida spp. (11 vs. 7) e Trichomonas vaginalis (7 vs. 5), sem diferença estatisticamente significativa.

Prática de bancada: no mesmo caso de candidíase, as hifas apareceram com mais nitidez na base líquida do que no convencional.

Leitura conjunta: no C4, a vantagem do convencional veio sobretudo de comensais (Döderlein); no estudo de Gupta, a base líquida registrou um pouco mais de vaginose, Candida e Trichomonas, sem significância. Para os organismos patogênicos, nenhum método se mostrou superior: o que pesa é o domínio dos critérios morfológicos em cada preparação.
Microbiota e HPV

O que a literatura sustenta e o que ainda não

Ilustração conceitual da relação entre microbiota e HPV

Uma via de mão dupla?

A associação descrita na capa não indica direção. Lebeau et al. (2022) propõem que o próprio HPV altere o ambiente cervicovaginal: a infecção reduziria peptídeos da imunidade inata da mucosa que os lactobacilos usam como fonte de aminoácidos, favorecendo a perda de sua dominância.

Nessa leitura, a disbiose pode ser tanto fator de risco quanto consequência da infecção, o que ajuda a explicar resultados divergentes entre estudos. Associação não é causalidade.

Nem todo lactobacilo é igual: L. crispatus associa-se tipicamente a um ambiente estável e pouco inflamatório, enquanto L. iners coexiste com estados de transição para a disbiose. A citologia não distingue as espécies: vê apenas bacilos.
Contraponto ao estudo da capa

Outro estudo não encontrou diferença

O estudo da capa associou a vaginose bacteriana a mais persistência do HPV. Já neste estudo, com 98 mulheres positivas para HPV de alto risco acompanhadas por dois anos (49 com clareamento e 49 com persistência), a microbiota vaginal, avaliada por cultura e tipos de comunidade (CST), não mostrou diferença global significativa entre os grupos.

Por que os estudos divergem

Microscopia, cultura e sequenciamento medem coisas diferentes, em populações e tempos de seguimento diferentes. A microbiota deve ser tratada como possível cofator, não como determinante isolado.

No mesmo estudo, a distribuição dos CST diferiu entre infecção única e múltipla por HPV de alto risco (p = 0,002).

Critérios de bancada e registro no laudo · Bethesda e Nomenclatura Brasileira
Vaginose bacteriana

Critérios: Fundo com película de cocobacilos; células escamosas recobertas (clue cells) com bordas obscurecidas; ausência marcante de lactobacilos e leucócitos geralmente escassos.

Alerta prático: Não confundir bactérias livres agregadas no muco com verdadeiras clue cells. Atipias escamosas podem ficar mascaradas pelo biofilme.

No laudo
Bethesda: alteração da microbiota sugestiva de vaginose bacteriana
Nomenclatura Brasileira: bacilos supracitoplasmáticos (sugestivos de Gardnerella/Mobiluncus)

Candida spp.

Critérios: Leveduras ovais com brotamento (3 a 7 µm) e pseudo-hifas eosinofílicas a acinzentadas, por vezes "espetando" agrupamentos de células escamosas.

Alerta prático: Alterações reativas associadas não devem ser interpretadas como ASC-US/LSIL; distinguir pseudo-hifas de fibras e artefatos.

No laudo
Bethesda: fungos morfologicamente compatíveis com Candida spp.
Nomenclatura Brasileira: Candida sp.

Trichomonas vaginalis

Critérios: Organismos piriformes, ovais ou arredondados, cianofílicos (15 a 30 µm), com núcleo excêntrico vesicular pálido e grânulos eosinofílicos; flagelos por vezes visíveis na base líquida.

Alerta prático: Evitar laudos baseados somente em restos citoplasmáticos ou núcleos nus; exige visualização clara do núcleo do parasita.

No laudo
Bethesda e Nomenclatura Brasileira: Trichomonas vaginalis

O achado citológico é presuntivo. Quando o quadro clínico exigir, a confirmação cabe a métodos microbiológicos ou moleculares.

Registro profissional

Atividades no 24º Congresso Brasileiro de Citologia Clínica da SBCC

03–05/09/2026 · Recife

Três dias de citologia e medicina laboratorial

Realizado com a 5ª Jornada Brasileira de Diagnóstico Laboratorial, no RioMar Eventos, o congresso reuniu especialistas, pesquisadores e estudantes em torno dos desafios atuais da patologia cervical e da medicina laboratorial.

O Citologia Descomplicada palestrou no workshop do Grupo Stra/GynoPrep e na Discussão de Casos 3, e realizou o rally citomorfológico com a OutSet Equipamentos e o Grupo Stra.

VER PÁGINA DO EVENTO
Participantes do congresso reunidos no último dia
03–05 SET · 2026RioMar Eventos, Recife, PE
Atividades

Workshop, rally e discussão de casos

Workshop sobre DNA-HPV e citologia em parceria com o Grupo Stra 03/09 · 14h

Workshop Grupo Stra / GynoPrep

Palestra com Dafiny Emanuele, assessora científica do Grupo Stra/GynoPrep: "DNA-HPV e citologia cervicovaginal: complementaridade no rastreamento do câncer do colo do útero".

Premiação do rally citomorfológico Dois dias

Rally citomorfológico

Realizamos o rally em parceria com a OutSet Equipamentos e o Grupo Stra: turmas analisaram lâminas ao microscópio, com premiação ao final. Registros na página seguinte.

Discussão de casos clínicos no último dia 05/09 · 11h

Discussão de Casos 3

Palestra com o Dr. José Queiroz Filho, na sessão de citologia ginecológica coordenada pelo Dr. Josenilson Ferreira Nunes, com análise morfológica de casos e critérios diferenciais.

Por que falar em complementaridade: o teste de DNA-HPV identifica quem tem infecção por HPV de alto risco; a citologia mostra se já há alteração celular e orienta a conduta nas pacientes positivas. Um exame não substitui o outro, porque cada um responde a uma pergunta diferente.
Integrantes da Comissão de Comunicação Social da SBCC no painel do 24º Congresso Brasileiro de Citologia Clínica
SBCC

Comissão de Comunicação Social da SBCC

Registro da Comissão de Comunicação Social da Sociedade Brasileira de Citologia Clínica (SBCC), entidade realizadora do congresso, no painel oficial do evento.

Rally citomorfológico

Critério morfológico em equipe

Em dois dias de rally, turmas de participantes analisaram casos de rotina ao microscópio, confrontando critérios e condutas em discussão aberta com os assessores técnicos. As equipes premiadas receberam o reconhecimento no estande GynoPrep.

Logo Grupo Stra Logo OutSet Equipamentos
Turma do primeiro dia do rally citomorfológico
Turma do dia 1
Turma do segundo dia do rally citomorfológico
Turma do dia 2
Premiação

Equipes reconhecidas no rally

Premiação do rally citomorfológico, registro 1
Premiação do rally citomorfológico, registro 2
Premiação do rally citomorfológico, registro 3
Premiação do rally citomorfológico, registro 4
Premiação do rally citomorfológico, registro 5
Premiação do rally citomorfológico, registro 6
Imagem da semana

Banquete de Trichomonas vaginalis

Micrografia real de citologia com Trichomonas vaginalis agrupados ao redor de células escamosas
Coloração: PapanicolaouAumento original: 400×Amostra: esfregaço cervicalMicrografia real · acervo editorial do Citologia Descomplicada

O que se vê

Múltiplos organismos de Trichomonas vaginalis agrupados na periferia de células escamosas, no padrão conhecido como "banquete", sobre fundo com neutrófilos.

O que procurar

  • Organismos cianofílicos, piriformes a arredondados, de 15 a 30 µm
  • Núcleo excêntrico, pálido e alongado; grânulos eosinofílicos
  • Pequenos halos perinucleares nas células escamosas

Não confundir com

  • Fragmentos citoplasmáticos degenerados e núcleos nus, sem núcleo do organismo
  • Neutrófilos agregados sobre a célula escamosa

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Referências

Organismos na citologia

C1.Pandey P et al. Spectrum and Prevalence of Infections Detected in Liquid-based Cytology of Cervical Smears. J Glob Infect Dis. 2025. PubMed
C2.Walttuoni Picón EY et al. Cervicovaginal Infections and Coinfections and Their Significance through the Papanicolaou Test. Acta Cytol. 2025. PubMed
C3.Santos MPS et al. Prevalence of Trichomonas vaginalis Infection in Women Screened for Precursor Lesions of Cervical Cancer in a Brazilian Population. Microorganisms. 2024. PubMed
C4.Patel N et al. A Comparison of Conventional Pap Smear and Liquid-Based Cytology for Cervical Cancer Screening. Gynecol Minim Invasive Ther. 2023 (errata em 2024). PubMed
C14.Gupta R et al. Comparative evaluation of conventional cytology and a low-cost liquid-based cytology technique, EziPREP, for cervicovaginal smear reporting: a split sample study. Cytojournal. 2019. PubMed

Microbiota e HPV

C5.Linz L et al. Bacterial vaginosis in microscopic examination of Pap smears in patients with high-risk HPV is associated with viral persistence and cytological progression in a longitudinal study. Infect Agent Cancer. 2026. PubMed
C6.Lebeau A et al. HPV infection alters vaginal microbiome through down-regulating host mucosal innate peptides used by Lactobacilli as amino acid sources. Nat Commun. 2022. PubMed
C11.Ozunlu GN et al. The relationship between HPV persistence and vaginal microbiotas in high risk-human papillomavirus positive patients. Ginekol Pol. 2026. PubMed

Nota editorial

As imagens da capa e das páginas 2 e 3 são ilustrações geradas por inteligência artificial, usadas apenas como recurso gráfico: não são micrografias reais nem figuras dos artigos. As fotografias do congresso são registros documentais, e a imagem da semana é uma micrografia real.

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